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domingo, janeiro 10, 2010

As "Janeirinhas"

Este texto constitui o meu modesto contributo na Blogagem Colectiva da Aldeia da Minha Vida cujo tema do mês de Janeiro é "Vamos Ca/ontar as Janeiras e Comer Bolo-Rei".
Para ler todos os textos e comentar, é aqui


Associo a prática de cantar as janeiras ou "janeirinhas", como se dizia na minha aldeia beirã, a um passado longínquo já quase esfumado na memória, uma vez que em Lisboa onde cheguei, ainda menina, no fim dos anos 60, e morei desde então, não se usava a tradição.
No meio rural, longe da civilização, onde os brinquedos eram raros, o entretenimento passava muito pela imaginação e criatividade das crianças.
Motivava-nos bem mais o prazer de competição entre grupos, ou o simples gozo de ver as críticas e reacções negativas de alguns habitantes do que esperança de sermos recompensados com uma côdea de pão ou um biscoito rijo.
Apesar do frio, saíamos de casa, enrolados no grosso cachecol de lã tricotado pela nossa mãe, mãos aconchegadas nas luvas e gorro enfiado na cabeça ficando apenas o nariz de fora, e calcorreávamos as ruas da aldeia nas frias manhãs de Janeiro, no dia 1 de Janeiro e no dia de Reis, cantarolando os tradicionais versos que iam passando de geração em geração:



Ainda agora aqui cheguei
Já pus o pé na escada
Já o meu coração disse
Aqui mora gente honrada

Levante-se lá Senhora
Do seu banco de cortiça
Venha-nos dar as janeiras
Ou morcela, ou chouriça

Pastores, pastores
Venham todos a Belém
Adorar o Deus menino
Que Nossa Senhora tem


(imagem da internet)

terça-feira, novembro 10, 2009

Falando sobre o Magusto

Aproxima-se o dia de S. Martinho e, como não podia deixar de ser, na Aldeia da minha Vida fala-se do tradicional Magusto ...

Falar de castanhas é recordar o Padre Eduardo, o melhor cristão que já conheci, pároco da aldeia beirã do Concelho de Trancoso, onde nasci e vivi a infância.

Das tias herdou um grande soito, situado no cimo de um monte, contíguo ao campo de futebol, cujo terreno ele cedera, proporcionando enorme alegria à rapaziada local.

Mal os ouriços começavam a sorrir, o Toninho, seu protegido desde que ficara orfão em criança, montava guarda ao soito e por lá passava os dias apanhando a castanha. Por altura do S. Martinho, o padre Eduardo reunia um grupo de crianças e em conjunto faziam a caminhada enquanto iam rezavam o terço, monte acima. Lá chegados, enquanto alguns ajudavam na apanha da castanha, os outros juntavam caruma e pequenos troncos que recolhiam no pinhal próximo e em grande animação acendiam a fogueira para o magusto. No fim do dia, os voluntários carregavam o saco com as castanhas que sobravam e fazia-se o caminho de regresso ao som de mais umas "Avé Marias".

No Departamento onde trabalho comemoramos o S. Martinho com um magusto reforçado, que inclui: Castanhas vindas directamente do produtor da zona da Guarda ou Viseu; jeropiga caseira da Beira Alta e Minho; presunto de Chaves ou da Mêda; chouriço de Arouca ou Alentejo; queijo de ovelha de Celorico da Beira e Castelo Branco; Água pé clandestina oriunda de um tasco, cujo nome não revelo nem à lei da bala e uma ou duas sobremesas (receita das ninas do grupo pascoalita e africana).

Mas agora me lembro que temos o S. Martinho à porta ... vou deitar o olho ao saco e ver o que temos para o magusto deste ano eheheh


domingo, novembro 01, 2009

Dia do "Pão por Deus"


A tradição já não é o que era ...

O tradicional corrupio de crianças que neste dia, que em grupo, durante toda a manhã me batiam à porta pedindo o "pão por Deus" parece ter os dias contados.

por outro lado, miúdos e graúdos parecem mais interessados em aderir ao culto do "dia de halloween", mais uma importação sabe-se lá de que canto do mundo, que em Portugal vai ganhando terreno em detrimento das nossas tradições.

O meu hortelão tinha comprado umas guloseimas ... preparei apenas estes 6 pequenos sacos à espera dos gaiatos e nem um único apareceu.



sábado, outubro 10, 2009

Blogagem Colectiva "Na minha terra come-se bem"

Texto com que participei na "Blogagem Colectiva" promovida pela Susana Falhas do Blogue Aldeia da minha vida sobre o tema: "na minha terra come-se bem":

Grelos à pobre"

Na tentativa de escrever sobre gastronomia da minha terra natal, na Beira interior, Concelho de Trancoso, subi ao sótão e remexi no baú das minhas recordações.

Mas para além do excelente pão (mistura de centeio e trigo) que a minha mãe cozia uma vez por semana, do rancho melhorado aos Domingos que quase sempre se traduzia num prato de arroz com feijão cujo agradável sabor ainda guardo na memória, das batatas cozidas com ovos ou bacalhau e da enorme terrina onde nunca faltava sardinha ou chicharro de escabeche, pouco mais há a dizer, a menos que contasse o episódio em que estando na aldeia de férias, me fechei na adega a comer pão com azeitonas e a certa altura tentando encher a enézima malga delas, mergulhei dentro da tina e quase morria afogada eheheh

Mas a gastronomia beirã é muito rica e variada e bastante apreciada e, apesar das minhas curtas estadias, sempre que vou até lá delicio-me com os pratos da região, tanto em restaurantes durante a viagem, como os pratos preparados pela minha sogra, em Marialva, concelho de Mêda.

O cabrito assado em forno de lenha, o famoso coelho bravo na região da Mêda, o excelente queijo de ovelha de Celorico da Beira e arredores, o saboroso presunto, os enchidos, o requeijão feito com o soro que resta após a manufactura do queijo e os vinhos, são apenas alguns exemplos.

Mas porque são as coisas mais simples que quase sempre nos dão mais prazer, uma das iguarias beirãs que mais aprecio e que aprendi a fazer já adulta, com o meu marido, são os "grelos à pobre", um prato que segundo dizem os mais velhos, constituía num passado não muito longínquo, a única refeição diária das famílias da aldeia. Servem-se acompanhados de farinheiro ou moiro cozidos e tostados na sertã e/ou torresmos.


(Imagem da Net)

Ingredientes:

1 molho de grelos de nabo
3 batatas médias
400g de entremeada c/2 dias de sal
1 farinheiro tenro
2 dentes de alho

Modo de fazer:

Arranjam-se os grelos, cortam-se em pedaços de cerca de 3 cm e levam-se a cozer em água abundante c/sal.
Num tacho à parte coze-se o farinheiro (ou moiro) e num outro as batatas. Depois dos grelos cozidos, escorrem-se e bem. Esmagam-se as batatas (com um garfo), junta-se aos grelos e envolve-se tudo. Corta-se o toucinho em tiras, colocam-se numa "sertã" e levam-se ao lume a fritar lentamente, virando de vez em quando até ficarem secos e libertarem toda a gordura. Retiram-se, deixam-se escorrer junta-se os dentes de alho esmagados à banha da fritura e deixam-se alourar. Regam-se os grelos com a banha ainda quente., envolve-se tudo e serve-se com o farinheiro ou moiro e os torresmos.
Bom apetite



sábado, setembro 26, 2009

Alcainça em festa


Não, não tem a ver com as eleições em curso, até porque é cedo demais para deitar foguetes e eles já estoiram no ar.


Trata-se da festa em honra de S. Miguel de Alcaínça, uma freguesia do concelho de Mafra, que ocorre todos os anos no mês de Setembro e cujos festejos tiveram ontem início e se prolongarão até à próxima Terça Feira, dia 29.
O programa parece aliciante, mas não costumo participar, apenas contribuo e com pouca vontade com um pequeno donativo, porque mordomos, e organizadores da carmesse, nunca se esquecem de bater à minha porta.


E este ano o mês de Setembro é duplamente festivo, sendo ainda visíveis os cartazes alusivos à recente passagem do círio da senhora da Nazaré, a caminho da vizinha freguesia da Igreja Nova, onde permanecerá até ao próximo ano.











Mas quando amanhã chegar a hora da contagem dos votos, S. Miguel terá de ter paciência e espírito de partilha, porque nem todos os foguetes que ouvirmos estalar, serão em sua honra eheheh

quinta-feira, setembro 10, 2009

Blogagem Colectiva "Vindimas e Vinhos"

Hoje publico o texto com que participei na "Blogagem Colectiva" promovida por Susana Falhas do Blogue Aldeia na Minha Vida.
Para ler todos os textos dos participantes, comentar e votar, é
Aqui.

Memórias ligadas à vinha

As vindimas de que tenho lembrança remontam aos últimos anos da década de 60 do século passado, quando eu era ainda criança com 10 ou 11 anos de idade e já integrava um grupo de trabalhadores da aldeia, e durante um dia inteiro, colhia os cachos e carregava à cabeça enormes cestos de vime cheios de uvas. Na minha aldeia, no Concelho de Trancoso, na Beira Alta, as vindimas tinham início em Setembro e por vezes prolongavam-se até Outubro.

Lembro-me do Sr Alberto, um respeitável feitor que tinha a seu cargo a tarefa de cuidar das vinhas, cujos donos moravam e exerciam a sua actividade profissional na capital, apenas se deslocando esporadicamente à aldeia onde permaneciam pouco tempo e raramente eram vistos.



O pessoal contratado, na maioria mulheres, juntava-se no adro da igreja, ou junto ao cruzeiro da aldeia e partiam em grupo, umas vezes a pé, outras numa carrinha de caixa aberta quando a vinha era mais distante, levando cada um o seu próprio farnel. A tarefa era desempenhada ao som de alegres canções populares e o tempo passava sem quase darmos conta.

Retrocedendo
a essa época, acabo por constatar que aquilo que é hoje considerado "exploração infantil", constituía para mim, e disso tinha plena consciência na altura, um dos poucos factores de alegria e realização pessoal. E bem me lembro da sensação de orgulho que sentia quando ao fim do dia me cruzava com meninas da minha idade que, por protecção paternal ou por terem sido preteridas pelo contratante, ficavam a brincar nas ruas da aldeia. E hoje, por mais estranho que possa parecer, sou capaz de afirmar que me sentia privilegiada por trabalhar.

O pisar das uvas e a prova do vinho mosto são lembranças que associo à casa de família quando os meus avós maternos ainda eram vivos, mas isso numa época tão longínqua que já quase se confunde com um sonho.

Muito mudou na minha vida desde então, mas as vindimas continuam a atrair gente às aldeias, o processo será menos artesanal, o ritual mais familiar, mas os actos de colher e pisar as uvas ainda são desempenhados em FESTA!

A última "vindima" em que participei foi há mais de 10 anos, quando troquei a cidade pelo campo, adquirindo uma moradia com quintal onde moro actualmente. Nesse ano o meu "aprendiz de hortelão" aventurou-se na experiência e um dia de "trabalho intenso" de 2 adultos e 2 crianças, rendeu:

- 15 litros de vinho tinto
- 10 litros de vinho branco
- 5 litros de jeropiga (tudo de excelente qualidade eheheh)


sábado, agosto 15, 2009

ExpoMalveira2009



Ainda a propósito de Festas e Tradições, lembro a ExpoMalveira, que está a decorrer aqui pertinho de mim e termina já amanhã. Todos os anos atrai milhares de visitantes oriundos dos vários pontos do país e é à noite que ganha mais animação.

Apesar de morar a 2 passos, não tenho por hábito visitar o certame. Apenas há uns anos atrás acompanhei o Luis, filho dos padrinhos que adora cavalos e quis visitar a exposição dos belos exemplares portugueses.

Hoje decidi aproveitar a hora a que supostamente o pessoal recuperava energias perdidas na véspera e calmamente eu e o meum manel demos uma breve volta ao recinto, onde estão representadas as principais actividades da região e as tradições ligadas à Malveira.

















Mais logo, pelas 21,30 horas será a tãqo esperada grande final "miss Mafra" que será eleita de entre as finalistas das 17 freguesias do Concelho.














O mês de Agosto é por excelência o mês das festas e tradições portuguesas e de norte a sul do país vêem-se cartazes anunciando eventos e expondo mostras do muito que ainda se vai fazendo em cada cantinho deste nosso Portugal.


segunda-feira, agosto 10, 2009

Blogagem Colectiva "Festas e Tradições"


Este pequeno texto é o meu contributo na Blogagem Colectiva promovida por Susana Falhas, no Blogue "Aldeia da Minha Vida". Todos os textos podem ser lidos AQUI. Participe votando no que mais lhe agradar.

À semelhança do que acontece com muitos "citadinos" oriundos do interior, o apelo ao regresso às raízes levou-nos a adquirir uma pequena moradia com quintal, em Alcainça, Concelho de Mafra, para nos refugiarmos aos fins-de-semana e nas férias.
A festa local em honra de S. Miguel de Alcainça ocorre anualmente em Setembro, mas os habitantes estavam mais envolvidos com os preparativos da festa da Freguesia vizinha, que se prendiam com o culto da imagem da "Senhora da Nazaré" de que eu nunca ouvira falar.

Trata-se do Círio da Senhora da Nazaré que circula pelas 17 Freguesias do Concelho de Mafra, sendo a festa a cargo da freguesia que a recebe e na qual se mantém até ao ano seguinte. Todos os anos a imagem é transportada em romaria de uma para outra freguesia, algumas distando vários quilómetros, obrigando a um cortejo moroso de coches, cavalos e pessoas a pé, chegando a demorar várias horas. Durante o percurso os "anjos" cantam as "loas" e as estradas enchem-se de devotos e um dos actos mais significativos tem lugar à chegada, em que o pároco eleva a imagem no ar mostrando-a à população. A festa prolonga-se por 10 dias ou mais!
Alcainça era apenas ponto de passagem da imagem que se deslocava da Freguesia da Enxara do Bispo para a Igreja Nova, facto que se repetirá no próximo mês de Setembro. Da festa ocorrida alguns anos depois em Alcainça, retenho poucas lembranças dignas de nota, mas o brilho das velas e lampiões a incidir nas pétalas das flores que cobriam a estrada, as pessoas ajoelhadas no alcatrão a rezar e os lamentos dos mais idosos que prevendo ser aquela a sua última visão da imagem se despediam acenando com lenços brancos à passagem do cortejo, constituíram um cenário que ficou gravado até hoje na minha memória. Portugal continua um país rico em tradições religiosas!